Abstract
<jats:p>Mais do que um livro sobre a pandemia, esta é uma obra sobre os legados produzidos pelo compromisso coletivo com a vida. Em meio ao luto, ao racismo estrutural, às desigualdades históricas e aos atravessamentos que marcaram de forma profunda os Povos e Comunidades Tradicionais de religiões de matriz africana, os terreiros reafirmaram que axé também é cuidado. Distantes de qualquer postura negacionista, mães e pais de santo, lideranças religiosas e comunidades de terreiro dialogaram com a ciência, aderiram às medidas sanitárias, incentivaram a vacinação e construíram estratégias coletivas de proteção, acolhimento e solidariedade. Entre silêncios, adaptações e reinvenções, os terreiros seguiram sustentando a vida, reorganizando seus rituais, protegendo suas mais velhas e fortalecendo redes comunitárias de cuidado em um dos períodos mais difíceis da história recente. O legado aqui narrado nasce justamente dessa encruzilhada entre ancestralidade e responsabilidade coletiva. Um legado construído por corpos que resistiram, por mãos que continuaram cuidando e por comunidades que transformaram dor em permanência, reafirmando que ciência, espiritualidade e cuidado nunca estiveram em lados opostos. Porque mesmo quando o mundo parecia paralisar-se diante do medo e da morte, o povo de santo continuou ensinando que preservar a vida também é uma forma de manter o axé aceso.</jats:p>