Abstract
<p>ResumoEste artigo examina o papel da exigência de fluência em inglês nos processos de contratação de graduados e sua contribuição para a reprodução de desigualdades sociais e raciais no mercado de trabalho brasileiro. Os dados provêm de 19 entrevistas semiestruturadas realizadas no Rio de Janeiro e em São Paulo entre julho de 2025 e janeiro de 2026: 18 com graduados beneficiários da política de cotas em universidades federais e uma com um consultor de contratação de diversidade. O argumento central é que, nos contextos analisados, a exigência de fluência em inglês pode operar como um mecanismo de fechamento social na transição entre a conclusão da educação superior e o acesso ao emprego. Esse mecanismo se estrutura por três processos inter-relacionados: (i) triagem por um recurso cultural cuja aquisição é fortemente estratificada por classe e raça; (ii) legitimação institucional do requisito como marcador de profissionalismo, mesmo quando sua relevância funcional para as atividades desempenhadas é limitada; e (iii) exclusão antecipatória de candidatos que, ao se depararem com a exigência, deixam de disputar determinadas vagas. Os resultados mostram ainda um descompasso recorrente entre o nível de proficiência formalmente exigido, sua avaliação nos processos seletivos e o uso efetivo do idioma no trabalho, sugerindo que o requisito pode produzir efeitos seletivos antes mesmo da seleção formal.Palavras-chave: desigualdades raciais; mercado de trabalho; estratificação; educação superior; ação afirmativa</p>