Abstract
<jats:p>Ao longo do século XX o registro do ato fisionômico de sorrir ampliou-se em propósitos e significações. Convenções de respeitabilidade burguesa, conjugadas às heranças da restratística pictórica, constituíam regimes tradicionais de autorrepresentação. A construção da visibilidade pública reconfigurou-se pela ascensão da cultura do consumo e do Ego, assim como por inovações nos recursos para auto retratação pública – das câmeras Kodak© aos smartphones e às selfies. Nesse contexto, discutimos a ascensão do “Eu vazio” e sua implicação na prevalência crescente de fenômenos depressivos associados ao tempo nas telas. Experiências acríticas, destituídas de transcendência, prejudicam a constituição do “Eu Integral”, pleno de sentido e propósitos coletivos assim como lapsos de referências significativas e necessidade de reconhecimento público tendem a degenerar em gregarismo supremacista - ascendência e dominação para coesão grupal. Como objetivo central, apontamos lacunas teóricas sobre a eticidade da exploração política/comercial do Narcisismo de massa instrumentalizado pelas mídias digitais. Definimos o conceito de “Idade Mídia” como o período histórico atual no qual a escassez de norteamento ético e regulação normativa, frente à contrapressão das big techs, geram anomia em diversos terrenos. Mediações digitais dominam a política e a economia com dispositivos de comunicação sistematicamente distorcida; interações sem relacionalidade proliferam em paralelo à descrença no futuro, desconexão com o passado e indiferença política; danos à saúde mental e ao pensamento crítico - com destaque às influências nefastas na auto-imagem de adolescentes superexpostos às telas-espelho. Concluímos, assim, que uma fundamentação ética/teórica consistente é anterior e estruturante para construção de parâmetros normativos que norteiem políticas públicas e uma “educação para as mídias” emancipadora.</jats:p>